Há encontros que terminam e, ainda assim, continuam vivos, guardados em algum lugar entre o peito e a memória: no modo como ainda hoje paro diante de certas vitrines, numa rua que sigo por hábito mesmo que já não leve a lugar nenhum, numa canção que mudo assim que reconheço as primeiras notas.
Com Sonia não houve um começo que se possa contar direito. Houve uma tarde qualquer, duas palavras trocadas quase por acaso, e depois o tempo fez o seu trabalho sem pedir licença.
Sonia tinha um jeito muito próprio de estar no mundo. Caminhava depressa, como se tivesse sempre um pensamento um passo à frente dela, e então parava de repente diante de uma vitrine, de um cachorro que passava, de uma frase que lhe vinha à cabeça, e naquele instante todo o resto desaparecia. Ria com a cabeça levemente inclinada para trás, uma risada verdadeira, nunca contida por educação. Mas também sabia ficar em silêncio por muito tempo, e aquele silêncio nunca era vazio: estava cheio de coisas que ela ainda decidia se me contava ou não.
Falava com as mãos. Quando contava alguma coisa que lhe era importante — um livro, uma ideia, um sonho da noite anterior — os dedos desenhavam no ar formas que as palavras, sozinhas, não conseguiam conter. Às vezes, ela me olhava de um jeito que me fazia sentir como se eu fosse a única pessoa que restava no mundo: deixava de prestar atenção ao que acontecia ao redor, fixava um ponto entre meus olhos e minha testa, e eu ficava imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar alguma coisa.
Aprendi o jeito dela de rir antes mesmo de me apaixonar por sua voz. Aprendi a perceber quando estava prestes a dizer algo importante, porque baixava os olhos um segundo antes de falar, e naquele segundo eu prendia a respiração sem perceber.
Andávamos por aí de mãos dadas, sem destino certo, e aquilo me bastava: o peso da mão dela na minha, o modo como seus dedos apertavam um pouco mais quando passávamos perto de alguma coisa que a assustava, como se procurasse em mim um ponto firme. Não eram necessários grandes gestos. Bastava estar ali. Sonia estava. Eu estava. E, durante um tempo que hoje me parece mais curto do que realmente foi, aquilo bastou.
Era bonita de uma beleza que não se percebia de imediato. Era preciso ficar um pouco perto dela, deixá-la falar, observá-la enquanto se iluminava ao falar de algo que lhe importava. Dizia que pensava demais, que sabia disso e mesmo assim não conseguia parar. Dizia que tinha mais medo de ficar sozinha do que de sofrer. Contou-me isso certa noite, quase em voz baixa, como se fosse um segredo pesado demais para carregar, e eu não soube responder — fiquei apenas ali, segurando sua mão um pouco mais forte.
Uma noite eu lhe disse:
«Você parece um desenho feito a lápis. Preciso, mas ainda em aberto.»
Ela riu, com aquela risada um pouco surpresa que lhe escapava quando alguma coisa realmente a tocava, e por um instante passou por seus olhos algo parecido com emoção, embora logo depois voltasse a brincar, como sempre fazia quando um sentimento lhe parecia grande demais para mostrar. A partir daquele dia, aquela frase passou a ser nossa. Bastava um olhar, no meio de um jantar, no meio de nada, e ambos sabíamos no que estávamos pensando.
Não foi ela quem se afastou primeiro. Fui eu, pouco a pouco, sem nunca dizer isso claramente. Havia em mim um pensamento que sempre voltava, discreto, quase tímido: talvez eu não fosse a pessoa certa para ela, talvez alguém assim não devesse se contentar. Nunca lhe disse isso de forma clara. Simplesmente comecei a estar um pouco menos presente, a responder um pouco mais tarde, a deixar que o silêncio falasse por mim. Não houve uma briga para recordar, nem uma palavra dita a mais. Um dia o telefone tocou uma vez a menos, depois outra, e então nos vimos sem saber muito bem como voltar a nos procurar.
Ainda existem, sobre a mesa da memória, duas xícaras vazias — a última vez em que nos encontramos para tomar um café, sem saber que seria a última. Não me lembro do que dissemos. Lembro apenas que ela brincava com a colherinha sem usá-la e que eu, por um instante, pensei em lhe dizer alguma coisa verdadeira, mas não disse.
O tempo passa e muda quase tudo. Algumas coisas, porém, permanecem exatamente onde você as deixou.
Permanecem.
Foi naqueles meses silenciosos, com mais tempo livre do que eu sabia como preencher, que voltei a uma pequena sala de paredes finas — aquela onde, algum tempo antes, eu havia deixado pela metade algo que sempre prometera a mim mesmo terminar. Não saberia dizer com certeza o que eu realmente procurava naqueles dias. Talvez apenas um lugar onde minha voz, pelo menos uma vez, pudesse chegar a alguém sem o medo de não ser suficiente.